Ânimo e firmeza na <i>Cerâmica de Valadares</i>
Já no final da reunião, num café-restaurante perto da fábrica, vem a notícia de mais um compromisso da administração quanto aos prazos para retoma da laboração, interrompida três semanas antes para limpeza e manutenção. Com justificada reserva quanto ao cumprimento da palavra dada, o compromisso é recebido como mais uma vitória da luta dos trabalhadores.
Resistir em unidade já trouxe importantes vitórias
Quando ali chegámos, na quinta-feira à tarde, sabíamos que tinham corrido dias agitados. Os salários de Fevereiro estavam ainda por pagar, Março chegava ao fim, à incerteza de todos os dias quanto ao futuro sobrepunham-se as contas com dia certo para serem pagas. Tinha ocorrido um plenário de trabalhadores, na segunda-feira, e muitos destes voltaram à fábrica na quarta-feira, dia para que tinham sido chamados os jornalistas pelo sindicato. Falara-se em retomar o bloqueio dos acessos, para impedir a saída de produto em stock. Com novas explicações e novos compromissos da administração, novas reuniões das estruturas representativas dos trabalhadores e novos plenários e contactos, não chegara ainda a ser tomada a decisão de fechar os portões.
No café, para onde estava apalavrado o encontro com os camaradas, notámos uma sala pequena abarrotada com uma dúzia de convivas, de copos na mão, com bolo na mesa. Era uma festa de anos, mas o que apanhámos do discurso, que certamente seria de parabéns, não deixou dúvidas quanto ao natural tema de quase todas as conversas. «É bom que eles, lá em cima, saibam que houve 28 sindicalizações», dizia um dos convivas.
«Eles, lá em cima» são os administradores ‒ António Galvão Lucas e José de Albuquerque Castelo Branco ‒ e respectivo staff. Cá em baixo, quem fazia este comentário era Alberto Silva, coordenador da comissão sindical, oleiro de lambugem, com 48 anos de idade e 25 de trabalho na Cerâmica de Valadares. O aniversariante era Augusto Nunes, presidente do Sindicato da Cerâmica do Sul e dirigente da federação da CGTP-IN no sector, ali destacado em trabalho sindical desde a véspera.
Mas disto só iríamos ficar a saber uma meia-hora mais tarde, depois da festa acabar, de a pequena sala se esvaziar, as mesas serem limpas e rearrumadas, para se sentar ali um grupo que não pôs copos na mesa. Alguns até puseram na mesa papéis. Estava a começar uma reunião da célula do Partido na Cerâmica de Valadares.
Tínhamos um
Esta foi uma reunião especial, em torno das perguntas que fomos colocando. As respostas foram confirmando que esta também é uma célula de empresa especial. «Nasceu de novo» e «estamos a aprender em conjunto», diz João Pires, do Comité Central do Partido e responsável pela organização concelhia de Vila Nova de Gaia na DORP (Direcção da Organização Regional do Porto), lembrando que «sempre viemos cá, não éramos mal recebidos, mas não era das empresas onde os trabalhadores nos recebiam melhor», aferindo por algumas recusas a receber a informação do PCP.
António Gonçalves, da DORP e responsável do sector de empresas de Gaia, conta para a reportagem, mas também para a reflexão de todos, que os recrutamentos dos camaradas que hoje constituem a célula ocorreram já este ano e, em especial, desde a grande vitória obtida com o bloqueio de Fevereiro. Antes «tínhamos ligação a apenas um camarada, que falava dos problemas da Cerâmica», mas isso bastou para o Partido intervir. «Quando fizemos um comunicado sobre o atraso no pagamento dos subsídios de férias de 2010, alguns trabalhadores não gostaram», mas depois vieram os atrasos no subsídio de férias de 2011 e os mais graves problemas do final de 2011 e no início de 2012. O PCP emitiu notas de imprensa, levou o caso à Assembleia Municipal, à Assembleia da República, ao Parlamento Europeu.
Entre os trabalhadores, a falta de pagamento de salários e subsídios provocou inquietação e situações particularmente dramáticas, exigindo-lhes que se organizassem para uma resposta colectiva. «Durante muitos anos, nos plenários aparecíamos uns 15 ou 20, mas quando começou a faltar o dinheiro os trabalhadores mexeram-se», conta Conceição Fernandes. Com 43 anos de idade, esta oleira de lambugem ficou marcada pelo carro de um dos administradores, num dos 15 dias que durou o bloqueio dos acessos da empresa. Como outros operários, não se deixou intimidar pela atitude do patrão e faz questão de dizer que, «se for preciso, vou dar outra vez o corpo às balas», porque «a casa é dele, mas a rua é minha».
Foram marcantes, os dias do bloqueio que terminou a 13 de Fevereiro. Ainda falando hoje no apoio «deles» ‒ merecendo o pronto reparo de que agora «somos nós, tu também és» ‒, quase todos os camaradas da Cerâmica de Valadares elogiaram as medidas práticas de ajuda aos piquetes, que ali tiveram de suportar algumas das noites mais frias que este Inverno teve. A solidariedade do PCP, que já tinha sido demonstrada em palavras e declarações, teve também expressão na «nossa presença, e ao repartir o nosso pão com os trabalhadores em piquete» ‒ como assinala uma nota em que a Concelhia criticou os «pequenos remedeios de duvidosa realização» que o presidente da Câmara de Gaia ali prometeu, «rodeado de jornalistas».
PCP dos trabalhadores
Nesses dias de aguda luta pelo pagamento dos salários, os trabalhadores puderam aperceber-se de muito do que torna o PCP diferente das demais forças políticas. Até a experiência adquirida com a Festa do Avante! e com iniciativas em que é preciso cozinhar para muita gente acabou por ser útil, para oferecer refeições quentes às dezenas de trabalhadores que se revezavam nos piquetes. Também foram levados cobertores, mas teve muita importância manter ali a experiência de lutas passadas, noutras empresas. «O Partido tinha que estar ali, a acompanhar, a avaliar o sentimento dos trabalhadores», salienta António Gonçalves. «Houve sempre o respeito pelos limites do trabalho sindical» e «o entendimento foi fácil, partindo de uma posição de classe».
Contrastando com uma quase romaria de dirigentes políticos de outras forças, Jerónimo de Sousa esteve com os trabalhadores em luta, no dia 4 de Fevereiro, «mas decidimos não chamar a comunicação social, como faziam os outros, a promoverem-se à custa da luta dos trabalhadores». Os comunistas estiveram presentes quando o pessoal da Cerâmica de Valadares decidiu deslocar-se até à Câmara Municipal, estiveram no desfile pelas ruas da vila... Tudo isto «fez mudar a maneira como o Partido é visto» na Cerâmica. Houve dez recrutamentos «e hoje mais um».
O relato de António Gonçalves foi várias vezes interrompido com expressões como «foram excepcionais», «foi o único partido no terreno». «Temos que dar força a quem dá força aos trabalhadores, porque não vamos ser só nós, outros vão precisar deste apoio», sublinha Raul Almeida, retocador de loiça sanitária, com 41 anos de idade e 21 anos de trabalho na Cerâmica de Valadares. Faz parte da Comissão de Trabalhadores, «nunca votei PSD nem CDS» e decidiu nesta luta fazer-se militante do PCP.
João Pires não esconde a satisfação, «os trabalhadores hoje tratam-nos pelo nome e reconhecem o papel que o Partido tem». Mas o PCP «não fez mais do que a sua obrigação, é também o partido dos trabalhadores que não reconhecem o seu papel» e «é esta persistência que precisamos ter com os que ainda não estão na luta».
Resistir ao desgaste
A preocupação quanto ao futuro da Cerâmica de Valadares, com 90 anos de actividade e uma valiosa marca implantada no mercado, ensombra desde há meses a vida das cerca de 350 pessoas que ali trabalham. Num concelho com elevados níveis de desemprego, a perspectiva de perder o posto de trabalho agrava as situações dramáticas, particularmente de famílias que não têm outras fontes de rendimento, já criadas com o não pagamento de salários e subsídios.
Quando perguntámos como encaram um eventual encerramento da fábrica, as respostas divergiram. Joaquim Cunha ‒ oleiro, de 43 anos, a quem o patrão já tinha acusado de ser comunista, mesmo antes de se inscrever no Partido ‒ diz que a Cerâmica «não pode fechar». Mas Raul Almeida acredita que «não tem a menor hipótese» e deve é «pagar o que nos deve».
Daniel Gonçalves, vidrador de loiça sanitária, com 43 anos e coordenador da Comissão de Trabalhadores, não aponta um fim para esta história. Afirma que a empresa «tem pernas para andar», mas alerta que «temos que manter a nossa luta, pelos postos de trabalho, pelos salários, para a empresa ir em frente».
Alberto Silva também acha que «não é para fechar, o nome vale muito dinheiro». Admite que os responsáveis da administração «apostam no desgaste das pessoas, para reduzirem o pessoal sem pagarem indemnizações». Esta também já tinha sido a opinião manifestada por Joaquim Cunha. E um facto é que, nestes meses de atrasos e instabilidade, cerca de 80 trabalhadores acabaram por rescindir os contratos «a troco de nada», diz Alberto.
Também se abordou a necessidade de um «encaixe» de um milhão e meio de euros, referida pela administração desde que, no dia 29 de Dezembro, parou a produção a pretexto de falta de pagamento da factura do gás. Sendo muito dinheiro, aquela verba representa pouco para a dimensão da empresa e do seu negócio.
Raul aponta três objectivos para o comportamento da administração: reduzir pessoal, manter os ordenados baixos e reatar a produção. De alguma forma, esta perspectiva também pode decorrer do velho projecto de mudar as instalações para outro sítio, como João Pires recorda e como a CDU e o PCP têm denunciado, desde que, há quatro anos, a Câmara reclassificou como área urbanizável os terrenos onde a fábrica está instalada ‒ uma área total de 176 mil metros quadrados. Na altura, isso ajudaria a obter créditos na banca, mas também aumentou os perigos da especulação imobiliária.
Vitória de todos
Entre negócios prováveis e incertezas constantes, a resistência dos trabalhadores já conseguiu importantes vitórias. Augusto Nunes destaca a diferença entre as posições de há três ou quatro meses, quando «diziam que não havia dinheiro para salários», e agora, quando já foram pagas as remunerações em dívida até meados de Fevereiro e quando a administração, naquela tarde de 29 de Março, tinha depositado 450 euros na conta de cada trabalhador, por conta do mês agora em dívida, assumindo compromissos de pagamentos futuros.
Augusto salienta ainda que não é fácil encontrar outros casos em que uma luta, com bloqueio da saída de material, se tenha prolongado por duas semanas, sem qualquer pré-aviso de greve e, no final, tenha sido possível chegar a um acordo que evitou que esses dias fossem descontados nos ordenados. «Defendemos a continuação da empresa, queremos que sejam garantidos os postos de trabalho de todos, queremos que aquilo que tem sido pago como prémio passe a ser integrado no salário, não aceitamos discriminações nem represálias», mas «já ganhámos», o que foi alcançado até agora «é uma vitória dos trabalhadores» ‒ salienta o dirigente sindical e militante comunista desde há mais de trinta anos.
A unidade dos trabalhadores e o firme apoio aos seus representantes tem sido fundamental para esta resistência vitoriosa. «Nestas três semanas, não largámos o calcanhar do homem», diz Alberto, relatando os telefonemas e reuniões com o administrador. Aponta Daniel e salienta que «ele levou a malta lá para cima», onde decorria uma dessas reuniões.
Há poucos meses que ambos estão na coordenação das estruturas, depois dos anteriores responsáveis terem deixado a empresa. «Ficámos nós, que não sabíamos falar em público, mas aquele plenário, com 150 trabalhadores a votar, deu-me força para aceitar isto» ‒ são palavras de Alberto, mas sentidas e partilhadas pelos acenos dos restantes camaradas.
Já houve mudanças de posto de trabalho, afectando uns 25 trabalhadores, que são claras manobras de represália por estarem activos na organização e na resistência. Os comunistas da Cerâmica admitem que possam ocorrer outras. Mas encaram essa luta com confiança, porque «os trabalhadores vão estar atentos e do nosso lado».
Dia decisivo na Cerâmica
Os trabalhadores da Cerâmica de Valadares decidiram voltar a concentrar-se ontem de manhã, à entrada da fábrica, para exigirem o pagamento dos salários em atraso (Março e parte de Fevereiro) e procurando também obter informações e garantias quanto ao futuro da empresa e dos postos de trabalho.
Ontem seria também o dia em que o PCP iria questionar o ministro das Finanças sobre a falta de intervenção do Governo para a a resolução dos problemas financeiros da Cerâmica. Quando se deslocaram a Valadares, na segunda-feira, para reunir com os representantes dos trabalhadores, os deputados comunistas Honório Novo e Jorge Machado criticaram o facto de a Caixa Geral de Depósitos ter aberto as mãos ao Grupo José de Mello para este comprar acções da Brisa, mas não se mostrar disposta a financiar uma empresa com história e possibilidades de exportar a sua produção.
A fábrica está parada há mais de três semanas, mas os trabalhadores e as suas organizações representativas mantêm-se vigilantes e têm-se reunido várias vezes